01 agosto 2008

Moderno instrumento de tortura! Para poucas...

Saiu de casa pontualmente às oito. "Atrasada, pra variar!", foi o que pensou. Tentando andar o mais rápido que podia, perguntou-se pela segunda vez por que cargas d'água colocou aquele sapato preto, bico e salto finos, que ficou liiiindo, mas estava comendo o seu pobre calcanhar. A primeira foi no ato de calçar o pisante, que custou baratinho e realmente era um modelo charmosinho.
Não era só pra estar bonita, pensou, porque seu conforto sempre esteve diretamente proporcional a sua auto-estima. Quanto mais à vontade estivesse, maior era seu bem estar. Não naquela manhã...
Subindo a rua, sentiu-se linda e olhada, apesar de estar meio triste por causa de algo que ninguém sabia, além dela própria e de seu travesseiro, grande companheiro de noites inteiras insones e banhadas de lágrimas.
Curioso era que nem mesmo o fato de estar se sentindo linda servia pra amenizar a dor do maldito sapato a comer-lhe o calcanhar.
Mas aguentou-se e resistiu à tentação de voltar pra trocar por outro. Os motivos dessa insistência? Simples demais... Pensar na dor causada pelo acessório não a deixava pensar em outra dor, qualquer que fosse. E funcionava também como auto punição por cometer novamente a incrível besteira de sair do eixo por pessoas e motivos levianos.
Isso! O salto alto e o bico fino eram o seu instrumento de tortura numa manhã em que queria sentir qualquer dor, menos a que não conseguia evitar. Queria que a necessidade de se concentrar para manter o equilíbrio (coisa que, às vezes, não tem nem de pé no chão!) a desviasse de perceber o coração que batia apertado há alguns dias.
Era uma forma de se manter no controle. De sofrer por algo escolhido por ela e não provocado por terceiros. Algo que ela sabia quando ia acabar, afinal era só tirar o sapato e acabava a tortura.
Simples como cabeça de mulher!
Foi elogiada, foi vista, foi observada, mencionada... E manteve o sorriso, apesar de sentir a pele do calcanhar ser maltratada pelo atrito com o material sintético (sapatos baratos são assim).
Admitiu, porém, sua derrota para o calçado chiquérrimo depois do almoço, quando deu uma corridinha em casa e calçou a rasteirinha mais confortável que tinha na sapateira. Voltou para o trabalho com um machucado enoooorme no pé, que demorou dias para cicatrizar, mas voltou com o alívio de ter mandado embora mais uma dor e certa de que poderia mandar embora qualquer outra. Afinal, o salto agulha é uma tarefa que pouquíssimas mulheres conseguem cumprir lindamente e sem reclamar.

2 comentários:

Brunno Ribeiro disse...

Meu deus, que coisa linda isto que vc escreveu, da para entender que parece um texto com um duplo sentido...
A forma da linguagem comparativa e narradora foi incrivel Jay,
Parabens amei este artigo..

BRunno R.

Kristianne disse...

Concordo plenamente: O salto agulha é tarefa dificílima prá muitas de nós mulheres... Talvez nem tanto como a nossa habilidade de passar por cima das dores causadas por ele... E por muitas outras dores... Sabemos bem disso não é mesmo, amiga???!!! Somos guerreiras!!! E de salto!!! Rsrsrsrs...